As eleições municipais acontecem em outubro de 2028, e a nova gestão assume em janeiro de 2029. Faltam pouco mais de dois anos. Quem ocupa hoje uma secretaria, uma assessoria ou um cargo de gestão sabe como essa passagem costuma ser: o que está na cabeça das pessoas sai com elas, e o que está em papel e planilha fica onde ficou.
A tecnologia sente isso mais que outras áreas, porque é nela que estão as senhas, os contratos, os fornecedores, os acessos e a memória de por que cada sistema foi escolhido.
O que se perde na transição de governo municipal
O acesso é o primeiro risco. Quem tem as senhas administrativas dos sistemas, do domínio, da hospedagem e das contas de nuvem? Em muitas prefeituras, uma pessoa. Quando ela sai, o acesso sai junto.
Os contratos de tecnologia vencem, e se ninguém sabe quando, a prefeitura descobre o vencimento pela interrupção.
Também se perde a razão das escolhas. Por que aquele sistema, e não outro? Qual foi a alternativa descartada? Sem registro, a nova gestão refaz análises que já foram feitas, ou desfaz decisões que tinham motivo.
Há ainda a carteira de projetos: o que estava em andamento, em que estágio, com qual recurso. Convênio parado e emenda a pagar passam despercebidos. E os compromissos com o controle seguem valendo, pois os prazos de prestação de contas e de resposta ao tribunal continuam correndo.
A dependência cresce no momento errado
O Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), mostra que 60,6% dos municípios pequenos paulistas, 237 de 391, operam com zero ou uma pessoa em tecnologia. Onde a equipe é de uma pessoa, a troca dessa pessoa é a perda de todo o conhecimento acumulado. Também se vê que 408 dos 644 municípios declararam ao tribunal não possuir PDTIC. No relatório de 29/09/2026, 48 de 644 (7,5%) tinham documento próprio elegível pela cadeia completa de verificação do estudo. No levantamento do Estudo Tecnologia, atualizado em 06/10/2026, são 111 de 644 (17,2%), e 186 de 644 (28,9%) têm algum documento confirmado.
O plano que existe apenas na cabeça do responsável, ou em um arquivo que ninguém abre, não sobrevive à saída dele.
O que um plano vivo preserva
Quando o plano está em uma ferramenta institucional, com histórico e acesso por perfil, a transição deixa de ser uma reconstrução e passa a ser uma leitura.
| O que se perde | O que o plano vivo preserva |
|---|---|
| Acessos e responsáveis | Inventário de sistemas com responsável e perfis de acesso |
| Calendário de vencimentos | Contratos com datas e alertas |
| Razão das escolhas | Registro das alternativas avaliadas e das decisões |
| Carteira de projetos | Projetos com estágio, prazo, responsável e evidências |
| Compromissos com o controle | Prazos de prestação de contas e respostas ao tribunal |
| Indicadores | Linha de base e série histórica, por gestão |
Um bom plano pertence à prefeitura, e não a uma gestão, e é o principal ativo de continuidade administrativa que ela pode deixar.
Há uma referência de prazo que ajuda a gestão que sai e a que entra. O plano com vigência de pelo menos dois anos e revisão anual chega à transição com a última revisão registrada, e a nova gestão sabe o que foi revisado e quando.
O PDTIC deve ter vigência mínima de dois anos com revisão anual.
Fonte: Secretaria de Governo Digital, página sobre PDTIC do Guia do Gestor do SISP, que cita a Portaria nº 778/2019, art. 6º, inciso VI, alterada pela Portaria nº 18.152/2020. Consulta em 06/10/2026.
Limite da fonte: a regra é dirigida aos órgãos do SISP, na administração federal, e nenhuma lei federal obriga o município a ela, por força da autonomia federativa (Constituição, artigos 1º, 18 e 30). O Guia de PDTIC do SISP, porém, é referência de boa prática para todos os municípios, que o utilizam por adesão voluntária. Para que tenha força obrigatória local, o município pode adotá-lo por decreto municipal. A Lei 14.129/2021, de Governo Digital, alcança os demais entes federados na medida em que adotarem seus comandos por ato normativo próprio (artigo 2º). A fundamentação para essa adoção, e os casos em que há recurso federal, está no artigo sobre PDTI e a Lei 14.133.
Roteiro de transição de 30 dias
- Dias 1 a 5, acesso: reunir e registrar todos os acessos administrativos, domínios, contas de nuvem e certificados. Confirmar quem os detém e por quê.
- Dias 6 a 10, contratos: levantar todos os contratos de tecnologia, com fornecedor, objeto, valor, vigência e vencimento. Destacar os que vencem em até 180 dias.
- Dias 11 a 15, riscos: identificar os serviços e processos críticos, o plano de contingência de cada um e o último teste de backup.
- Dias 16 a 20, projetos: listar os projetos em andamento, com estágio e recurso, e as emendas, convênios e prestações de contas pendentes.
- Dias 21 a 25, obrigações: mapear os prazos de resposta ao tribunal, ao Ministério Público e aos concedentes, e as obrigações da LGPD e da transparência.
- Dias 26 a 30, entrega: consolidar tudo em um painel único e apresentar à nova gestão, com recomendações de prioridade.
Esse roteiro é muito mais simples quando o plano já está vivo, porque cada etapa é uma consulta, e não uma investigação.
Transição e política
Continuidade administrativa não tem partido. A nova gestão tem o direito de mudar as prioridades, e é saudável que o faça. Mas só consegue mudá-las com consciência se conhecer o que recebeu. Um plano vivo dá à nova gestão um ponto de partida, sem limitá-la.
Perguntas frequentes
Quando é a próxima transição de governo municipal?
As eleições municipais acontecem em outubro de 2028, e a nova gestão assume em janeiro de 2029.
O que a tecnologia perde na troca de gestão?
Acessos, calendário de vencimentos dos contratos, a razão das escolhas, a carteira de projetos e os compromissos com o controle.
Como preparar a transição de tecnologia?
Com um roteiro de 30 dias: acessos, contratos, riscos, projetos, obrigações e entrega consolidada em um painel único.
Fontes
- Estudo Tecnologia, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base nas respostas ao i-Gov TI, exercício 2024, exportação oficial do TCE SP.