Imagine que o sistema de arrecadação da prefeitura fique fora do ar por três dias. Depois imagine o mesmo com a folha de pagamento, o prontuário eletrônico, o sistema de matrícula, a emissão de alvarás, o atendimento ao cidadão.
Em poucos dias, a cidade deixa de receber, de pagar, de atender e de provar o que fez. Com a tecnologia parada, a cidade para junto. Este artigo mostra o tamanho da dependência de tecnologia na prefeitura com os dados do Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), sobre os 644 municípios paulistas, exercício 2024.
A cidade inteira roda em sistema
O i-Gov TI, questionário do TCE SP, pergunta, para 17 áreas, se o município tem sistema. Os números para as áreas principais:
| Área | Municípios com sistema | Sobre os 644 |
|---|---|---|
| Recursos humanos e folha | 636 | 98,8% |
| Tributos | 635 | 98,6% |
| Compras e licitações | 634 | 98,4% |
| Dívida ativa | 626 | 97,2% |
| Patrimônio | 625 | 97,0% |
| Certidões e alvarás | 585 | 90,8% |
| Saúde | 583 | 90,5% |
| Planejamento | 534 | 82,9% |
| Controle interno | 524 | 81,4% |
| Ensino | 439 | 68,2% |
Em média, cada município tem sistema em 13,6 das 17 áreas, o que dá 80,3% do escopo que o tribunal pergunta. A mediana é de 14 sistemas por município.
Outros dois números completam o retrato: 98,9% (637 de 644) têm software de gestão de processos, e 97,0% (625 de 644) oferecem serviço online ao cidadão. Quase toda prefeitura paulista já depende de sistema para funcionar e para atender.
O próprio índice de efetividade depende de tecnologia
A dependência não termina na operação. O estudo calculou que 47,3% da pontuação do IEGM é tecnologicamente mandatória, e 83,9% quando se soma a parte apenas habilitadora. Por dimensão, a parcela mandatória é de 89,5% no i-Fiscal, 71,5% no i-Plan, 62,7% no i-Saúde e 59,5% no i-Gov TI.
O mapeamento do estudo liga 165 itens do IEGM a soluções tecnológicas, em 326 relacionamentos nas sete dimensões. Hoje, prestar contas ao tribunal também passa por sistema.
E o que sustenta essa dependência?
Uma dependência alta pede uma estrutura à altura, e os mesmos dados mostram o contrário:
- 155 de 644 municípios não têm setor de TIC.
- 234 não têm nenhum servidor concursado na área.
- 237 dos 391 municípios pequenos, 60,6%, estão no grupo sem setor de TIC declarado ou com até uma pessoa: 143 não declaram setor, um informa explicitamente zero pessoas e 93 informam uma pessoa.
- 235 dos 489 municípios que responderam à pergunta não oferecem capacitação em TI.
- 55,1% não têm política de segurança da informação.
- Entre os 289 que têm, 135 (46,7%) declaram plano de continuidade de serviços de TIC, sem que a base prove que foi testado.
Essa é a conta que o título resume: a cidade depende de sistema em quase todas as áreas, e em boa parte dos municípios quem cuida desses sistemas é uma pessoa, ou ninguém.
A dependência que não se enxerga
Há ainda outra camada. Ter sistema não quer dizer ter sistema governado. O tribunal pergunta quatro coisas por área: se há sistema, se ele está integrado à contabilidade, se a base de dados está sob gestão direta da prefeitura e se há controle de acesso.
Somando as quatro, o município atende por completo, em média, 9,2 das 17 áreas, ou 54,2% do escopo. Em saúde, só 219 dos 644 municípios atendem por completo. Em ensino, 168. São 338 municípios com sistema de saúde que não conversa com a contabilidade, 247 no ensino e 220 com as duas áreas nessa condição.
Se o sistema para, a prefeitura sente. Se o sistema funciona, mas ninguém sabe quem tem o acesso, onde está a base de dados e quando vence o contrato, ela só descobre na crise.
Se parar hoje: um exercício
O quadro abaixo é um raciocínio ilustrativo, e não um dado do estudo. Ele liga cada área ao que o município deixa de fazer quando o sistema dela para.
| Área | O que o município deixa de fazer |
|---|---|
| Tributos e dívida ativa | Lançar, cobrar e arrecadar |
| Recursos humanos | Calcular e pagar a folha |
| Saúde | Registrar atendimentos, controlar estoque e faturar |
| Ensino | Matricular, controlar frequência e merenda |
| Certidões e alvarás | Emitir documentos exigidos do cidadão |
| Compras | Contratar e empenhar |
O que o estudo não mede
O estudo mede a presença de sistemas e a governança declarada. Ele não registra paradas reais, nem quanto tempo as prefeituras ficaram sem sistema, nem o custo de uma interrupção. Por isso este artigo fala em dependência, e não em frequência de falhas. Também não há base de apontamentos do tribunal no estudo, e por isso nada aqui diz que a falta de integração gera apontamento.
Por onde começar a tornar a dependência visível
- Inventariar: listar os serviços e processos críticos e o sistema que sustenta cada um, com fornecedor, contrato e vencimento.
- Classificar o risco: impacto, probabilidade e tempo máximo de interrupção, em uma matriz referenciada à ISO 31000 e à ISO 27005.
- Dar rotina: um plano vivo, com responsável, calendário de vencimentos e revisão. Recursos de alerta devem ser descritos conforme as funcionalidades documentadas para a solução contratada.
Perguntas frequentes
Quantas prefeituras dependem de sistema para funcionar?
No estudo, 98,9% dos 644 municípios paulistas têm software de gestão de processos, e 97,0% oferecem serviço online. Em áreas como folha, tributos e compras, mais de 98% têm sistema.
O que acontece se o sistema de uma prefeitura parar?
O estudo não mede interrupções reais. O que ele mostra é a dependência: quase todas as áreas operam em sistema. Entre municípios pequenos, 143 não declaram setor de TIC, um informa explicitamente zero pessoas e 93 informam uma pessoa; ausência de declaração não significa equipe inexistente.
Como medir a dependência de tecnologia da minha prefeitura?
Começando por uma tabela que liga cada serviço crítico ao sistema que o sustenta, ao fornecedor, ao vencimento do contrato e ao responsável interno.
Fontes
- Estudo Tecnologia, Investigação sobre Integração de Sistemas e Escopo dos Sistemas Municipais, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base nas respostas ao i-Gov TI, exercício 2024, exportação oficial do TCE SP.
- Estudo IEGM, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base no IEGM 2025, exercício 2024.