Quem procura um modelo de PDTI quer ganhar tempo. É razoável. Um modelo mostra como organizar capítulos, que perguntas fazer e que tabelas montar, e economiza semanas de página em branco.
O problema é o que acontece depois que o modelo é preenchido. A prefeitura passa a ter um documento. E o documento, por melhor que seja o modelo, não resolve o que costuma travar o plano: quem executa, onde ele vive, como se atualiza e o que sobrevive à próxima troca de gestão.
Este artigo defende que a prefeitura precisa de uma plataforma na qual o plano viva, mais do que de um modelo melhor.
O que um modelo de PDTI entrega
O modelo mais usado é o do Guia de PDTIC do SISP, versão 2.1, publicado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em dezembro de 2021. Ele organiza a elaboração em três fases: preparação, diagnóstico e planejamento. Muitos PDTIs municipais seguem essa lógica, com capítulos de referencial estratégico, inventário de necessidades, plano de metas e ações, e gestão de riscos.
Isso é útil. Um modelo serve como roteiro de conteúdo e como lista de conferência. Quem vai elaborar um PDTI, ou revisar o que tem, faz bem em conhecê-lo.
O que um modelo não entrega
Um modelo organiza texto. Os problemas de um plano de tecnologia costumam estar fora do texto.
| Problema | O que o modelo faz | O que o problema exige |
|---|---|---|
| Ninguém executa | Prevê um capítulo de responsáveis | Dono, prazo e cobrança, semana a semana |
| O plano envelhece | Prevê uma seção de revisão | Registro de cada ação e rotina de atualização |
| O plano não vira contratação | Cita o plano de contratações | Ligação de cada ação ao orçamento e ao estudo técnico |
| Ninguém consegue comprovar | Pede evidências | Evidência guardada e publicada por ação |
| A gestão troca | Nada | Memória institucional fora da cabeça de uma pessoa |
| Os sistemas não conversam | Lista os sistemas | Integração e acompanhamento entre secretarias |
Em cada linha, o modelo cobre o papel e deixa a rotina por conta da prefeitura, e é a rotina que costuma faltar.
O que os dados mostram
O Estudo Tecnologia, da Ana Smart Solutions (setembro de 2026), cobriu os 644 municípios paulistas, exercício 2024.
O documento existir não basta. No relatório de 29/09/2026, dos 644 municípios, 596 (92,5%) não completam a cadeia de verificação do estudo: identidade do plano, vigência e documento próprio. A revisão documental reuniu 133 artefatos, confirmou a identidade do plano em 79, a vigência em 2024 em 54, e encontrou documento próprio elegível em 48. No levantamento do Estudo Tecnologia, atualizado em 06/10/2026, 111 de 644 municípios (17,2%) têm documento elegível, somando as camadas A e B, e 186 de 644 (28,9%) têm algum documento confirmado, somando as camadas A, B e C. Inferência: mesmo com essa atualização, 533 de 644 (82,8%) ficam fora da elegibilidade estrita, e 458 de 644 (71,1%) não têm nenhum documento confirmado.
Falta quem execute. Entre os 391 municípios pequenos, 237 operam com zero ou uma pessoa em tecnologia. Um plano de 150 páginas, preenchido a partir de um modelo, cai sobre uma equipe de uma pessoa.
A compra se repete. Entre os municípios paulistas localizados no recorte do PNCP, 10 dos 27 que declaram possuir PDTI contrataram um novo PDTIC. Nos pares de contrato e tema observados, 93,7% têm vigência de até doze meses. O dado sinaliza risco de descontinuidade, mas não mostra sozinho quando terminou a execução de cada plano. Se o contrato cobre apenas a elaboração e termina no aceite, ele mede a entrega do documento, não os resultados de execução que surgem depois.
O plano marca a capacidade, mas não a garante. Municípios com PDTIC têm mais chance de nota B ou superior no IEGM (25,8% contra 9,6%). É uma associação, e não causalidade: a prefeitura que consegue produzir, publicar e manter um plano vigente tende a conseguir também organizar o resto da gestão. O que se associa à nota é a capacidade de manter, e não o texto do modelo.
Um modelo de PDTI também precisa declarar a vigência, e a referência do guia federal é objetiva.
O PDTIC deve ter vigência mínima de dois anos com revisão anual.
Fonte: Secretaria de Governo Digital, página sobre PDTIC do Guia do Gestor do SISP, que cita a Portaria nº 778/2019, art. 6º, inciso VI, alterada pela Portaria nº 18.152/2020. Consulta em 06/10/2026.
Limite da fonte: a regra é dirigida aos órgãos do SISP, na administração federal, e nenhuma lei federal obriga o município a ela, por força da autonomia federativa (Constituição, artigos 1º, 18 e 30). O Guia de PDTIC do SISP, porém, é referência de boa prática para todos os municípios, que o utilizam por adesão voluntária. Para que tenha força obrigatória local, o município pode adotá-lo por decreto municipal. A Lei 14.129/2021, de Governo Digital, alcança os demais entes federados na medida em que adotarem seus comandos por ato normativo próprio (artigo 2º). A fundamentação para essa adoção, e os casos em que há recurso federal, está no artigo sobre PDTI e a Lei 14.133.
Plano não é só documento
Um plano de tecnologia é um conjunto de decisões que mudam o tempo todo: prioridades, contratos, prazos, riscos, recursos. Um documento fotografa uma decisão em um dia. Uma plataforma acompanha as decisões enquanto elas mudam.
Compare um mapa impresso com um navegador: o mapa pode ter sido feito com cuidado, e ainda assim não avisa que a rua foi interditada.
E o PDTI não é o maior problema
O plano diretor de tecnologia é importante, mas é um dos menores problemas de um prefeito. O que ele precisa é conceber e conduzir os projetos da gestão até o impacto real: diagnosticar, priorizar, planejar, captar, contratar, executar, prestar contas e mostrar resultado. O PDTI é um fio dessa trama.
Por isso comprar um modelo, ou contratar a elaboração de um documento, resolve uma parte pequena de uma necessidade grande. O DIRECITY GOV conduz automaticamente a elaboração do plano a partir de fontes oficiais, incluindo informações de IEGM, ATRICON, plano de governo, diagnósticos automatizados, referenciais ISO, SUS Digital, LGPD, SIAFIC e ODS. Os achados são levados aos envolvidos para validação. O produto não substitui o Guia do SISP, a decisão municipal ou a procuradoria.
Nas doze buscas temáticas do estudo no PNCP, não foi localizada contratação que reúna as nove frentes. Entre os 337 fornecedores identificados, nenhum aparece em mais de quatro temas. A conclusão é sobre o mercado municipal de contratações públicas documentado nesse recorte; as buscas são temáticas e não exaustivas, e seus totais são piso observado.
Documento ou plataforma: o que acontece em doze meses
| Em doze meses | Modelo ou documento | Plataforma |
|---|---|---|
| Quem atualiza | Quem lembrar | Rotina com responsáveis e ações registradas |
| Onde o plano vive | Arquivo | Ambiente com histórico e perfis de acesso |
| Ligação com o orçamento | Citação no texto | Ações ligadas ao plano de contratações |
| Evidência | Reconstruída depois | Registrada durante a execução |
| Troca de gestão | Depende de quem sai | O histórico fica com a prefeitura |
| Integração com outros módulos | Precisa ser especificada e verificada | Verificar os fluxos e integrações efetivamente disponíveis |
Cinco perguntas para decidir
- Existe uma pessoa responsável pelo plano, com tempo reservado?
- Cada ação tem prazo, indicador e evidência registrados?
- As ações estão ligadas ao plano de contratações anual?
- O plano está publicado, datado e acessível?
- Se o responsável sair amanhã, a prefeitura sabe onde está tudo?
Se três ou mais respostas forem "não", o modelo não basta, e o caminho é uma ferramenta em que o plano possa viver.
O que este artigo não afirma
Não afirma que a plataforma eleva a nota do IEGM, porque o desenho do estudo é transversal. Não afirma economia em números, porque não há base de despesa municipal para estimá-la. Também não afirma que o modelo é inútil: como roteiro de conteúdo, ele cumpre o seu papel. Afirma que o modelo cobre a menor parte do problema.
Perguntas frequentes
Onde encontrar um modelo de PDTI?
O ponto de partida mais usado é o Guia de PDTIC do SISP, do governo federal, e muitas prefeituras publicam o próprio PDTI em seus portais. Vale usá-los como referência de estrutura, e não como cópia.
Posso copiar o PDTI de outra prefeitura?
Como estrutura, sim. Como conteúdo, não: as necessidades, os sistemas e a equipe do outro município são diferentes dos seus, e o plano precisa partir do inventário local.
Um modelo de PDTI resolve a contratação do plano?
Ajuda a escrever o termo de referência, mas não resolve quem mantém o plano depois. Para isso, o termo precisa prever ferramenta de acompanhamento e vigência de ciclo.
Fontes
- Estudo Tecnologia, Ana Smart Solutions, setembro de 2026, com base nas respostas ao i-Gov TI e ao IEGM, exercício 2024, exportação oficial do TCE SP, e em contratos do Portal Nacional de Contratações Públicas.
- Guia de PDTIC do SISP, versão 2.1, Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, dezembro de 2021.
- Lei 14.133/2021.