A mesma tecnologia, dois nomes
Quando uma empresa compra um sistema que reduz retrabalho, chama isso de investimento e espera retorno. Quando uma prefeitura compra o mesmo sistema, chama de despesa e espera o momento de cortar. A diferença não está na tecnologia, está na forma de enxergá-la.
Em 2027 essa diferença vai custar caro. Os riscos fiscais que chegam às prefeituras estão descritos em Fazer mais com menos: a agenda de 2027, e a resposta item a item está em O que vale para o empresário vale em dobro para o prefeito. Este terceiro artigo trata da peça que conecta os dois: tecnologia precisa entrar na pauta de 2027 como investimento em capacidade, produtividade e otimização, ou, no mínimo, como suporte que mantém a operação de pé.
O que as empresas já entenderam
Nas médias e grandes empresas brasileiras, gastos e investimentos em tecnologia chegaram a 10% do faturamento líquido em 2024, segundo a 36ª Pesquisa Anual do Uso de TI do FGVcia, da FGV EAESP. Em 1988 eram 1,3%. A tendência apontada pela pesquisa é de cerca de 12% (FGV EAESP).
| Setor | Gastos e investimentos em TI, % do faturamento (2024) |
|---|---|
| Bancos | 21% |
| Serviços | 14,8% |
| Média geral | 10% |
| Indústria | 5,4% |
| Comércio | 4,8% |
O dado mais útil para o gestor público está no topo da tabela. Bancos e empresas de serviços, que vivem de processar informação e atender gente, são os que mais investem em tecnologia. Uma prefeitura é, essencialmente, uma prestadora de serviços que processa informação: cadastros, tributos, matrículas, consultas, licenças, pagamentos.
Do lado público, falta o número equivalente. Não encontramos um levantamento nacional consolidado que mostre quanto os municípios gastam com tecnologia nem qual o peso desse gasto no orçamento. Um estudo financiado pela ABEP-TIC sobre os estados já apontava que as contas públicas não separam claramente os gastos com TIC, o que dificulta qualquer análise (ABEP-TIC). O que não é medido como investimento dificilmente é gerido como investimento.
O que se sabe é que a adoção ainda é desigual. Na TIC Governo 2025, do Cetic.br, 27% das prefeituras usaram inteligência artificial nos 12 meses anteriores à pesquisa: 85% entre as cidades com mais de 500 mil habitantes e 22% entre as de até 10 mil. Entre as barreiras, 36% disseram que tecnologia não é prioridade do governo e 34% citaram custos elevados (Exame).
Por que na prefeitura vira despesa
Parte da resposta está na contabilidade pública. Desde a Portaria Conjunta STN/SOF nº 02/2017, os gastos com tecnologia têm um elemento de despesa próprio, o 40, e a classificação depende do que se contrata. Nota técnica da Secretaria da Fazenda do Espírito Santo, com base no Manual de Contabilidade Aplicada ao Setor Público, resume a regra (SEFAZ-ES):
| O que se contrata | Classificação |
|---|---|
| Manutenção corretiva e preventiva, sem novas funcionalidades | Despesa corrente |
| Locação ou licença temporária de software, como serviços em nuvem sem acesso após o contrato | Despesa corrente |
| Aquisição de software pronto | Despesa de capital |
| Desenvolvimento sob encomenda | Despesa de capital |
| Manutenção evolutiva, que acrescenta funcionalidades | Despesa de capital |
A regra contábil está correta: ela registra se a prefeitura passou a ter um ativo ou não. O problema é o que acontece depois. Como o modelo de serviço, que hoje domina o mercado de software, cai quase sempre em despesa corrente, a tecnologia passa a disputar espaço com material de limpeza e combustível na mesma rubrica de custeio. E custeio é a primeira linha cortada quando a arrecadação aperta.
O efeito aparece também no financiamento. O BNDES PMAT Automático, linha que financiava modernização da gestão municipal, excluía expressamente o custeio dos itens financiáveis e está com o protocolo de pedidos suspenso (BNDES). A linha ativa, o BNDES Finem PMAT, financia equipamentos, software nacional, serviços de TI e capacitação, mas com valor mínimo de R$ 20 milhões, o que a deixa fora do alcance da maioria dos municípios (BNDES).
A consequência prática é um ciclo conhecido: na crise, corta-se o contrato de sistema; sem sistema, a máquina perde capacidade; com menos capacidade, a crise piora. Diante da queda do FPM já registrada em 2026, descrita em O que vale para o empresário vale em dobro para o prefeito, a orientação que circula é rever e cortar gastos operacionais. Ela está correta, desde que o corte separe desperdício de capacidade. Se não separar, os contratos de tecnologia, registrados como custeio, estarão entre os primeiros alvos. A classificação contábil não precisa mudar. O que precisa mudar é a lógica de gestão: um gasto registrado como custeio pode, e deve, ser decidido e acompanhado como investimento.
Os quatro níveis de retorno
Tratar tecnologia como investimento começa por dizer qual retorno se espera dela. Nem todo sistema precisa transformar a prefeitura; alguns só precisam impedir que ela pare. O erro é não saber em qual nível cada contrato está.
| Nível | O que entrega | Como medir |
|---|---|---|
| 1. Suporte à operação | Mantém folha, contabilidade, tributos e atendimento funcionando, dentro da lei | Disponibilidade, prazos legais cumpridos, obrigações entregues aos órgãos de controle |
| 2. Otimização | Reduz desperdício e retrabalho em processos que já existem | Custo por processo, tempo de tramitação, economia em contratos e consumo |
| 3. Produtividade | Faz a mesma equipe entregar mais | Atendimentos, processos ou fiscalizações por servidor |
| 4. Capacidade | Permite fazer o que a prefeitura não conseguia fazer antes | Receita recuperada, serviços novos, decisões tomadas com dado integrado |
O nível 1 é o piso, e em 2027 ele já exige atenção, porque a transição tributária obriga sistemas fiscais e contratos a se adaptarem a regras novas. Os níveis 2 a 4 são os que pagam a conta. Um gasto de nível 1 se justifica pelo risco que evita; um gasto de nível 3 ou 4 tem de mostrar quanto devolve.
Há evidência de que esse retorno existe. Um estudo com os estados brasileiros, de 2004 a 2014, encontrou que cada aumento de 1% na despesa per capita com TIC estava associado a um ganho de 0,058% na eficiência dos gastos do governo no ano seguinte. O mesmo trabalho cita pesquisa sobre os estados americanos em que cada US$ 1 de despesa estadual com TI estava associado a uma redução de US$ 3,49 nas despesas totais (ABEP-TIC). São associações estatísticas, não promessas, mas apontam na mesma direção: tecnologia bem aplicada reduz o custo de governar.
A produtividade é o nível que mais pesa em 2027. Com a jornada 5x2 elevando o custo da mão de obra terceirizada, cada tarefa repetitiva automatizada é uma hora de trabalho que não precisa ser recontratada.
É a mesma recomendação que o Sebrae faz aos pequenos negócios diante da nova jornada. Em entrevista à Record News, Eduardo Curado, gerente de soluções da instituição, citou o funcionário que passa as compras no caixa: muitas vezes essa tarefa pode ser feita por um sistema, e a pessoa pode ser deslocada para outras funções sem que seja preciso contratar alguém para cobrir a nova jornada (Record News). Na prefeitura, o equivalente são o atendimento que pode ser digital, a conferência que pode ser automática e o cadastro que pode ser preenchido por integração.
Cada real precisa voltar
Tratar tecnologia como investimento não é trocar o nome da rubrica. É provar, com número, que cada real aplicado volta para a prefeitura como receita, economia, tempo ou atendimento. Os casos abaixo, todos documentados, mostram que esse retorno já acontece em prefeituras brasileiras.
| Ganho | O que a tecnologia fez | Resultado |
|---|---|---|
| Aumento de receita | Atualização do cadastro imobiliário por georreferenciamento em Sidrolândia (MS) | Pelo menos R$ 13 milhões a mais no lançamento do IPTU de 2026; a arrecadação estimada passa de R$ 17,4 milhões em 2025 para cerca de R$ 27,5 milhões (Região News) |
| Redução de custo | Processo Eletrônico de Curitiba (Procec), em uso desde 2020 | Mais de R$ 43 milhões economizados em transporte de documentos, insumos e horas de trabalho (Rede TV Paraná) |
| Melhor atendimento | O mesmo Procec, aberto a cidadãos e fornecedores | 302.418 interações concluídas sem que o cidadão precisasse ir à prefeitura |
| Redução de tempo | Adesão de municípios mineiros à Redesim+Livre, que automatiza viabilidade, alvarás e licenças | Abertura de empresas em 8,8 horas, em média, contra 18,9 horas no estado como um todo, segundo o Mapa das Empresas (Forbes) |
| Economia em escala | Integração de dados entre órgãos federais | Economia estimada de R$ 3,06 bilhões em um semestre, como detalhado em Fazer mais com menos |
Nenhum desses resultados depende de tecnologia de ponta. São cadastro, processo eletrônico e integração, a infraestrutura básica que quase toda prefeitura já contrata de alguma forma. A diferença está em contratar sabendo qual ganho se espera e medir se ele veio.
Como garantir que o retorno venha
- Linha de base antes do contrato. O estudo técnico preliminar exigido pela Lei 14.133/2021 é o lugar para registrar quanto o processo custa, quanto tempo leva e quanto arrecada hoje. Sem esse ponto de partida, nenhum ganho pode ser provado depois.
- Retorno escrito no contrato. No contrato de eficiência criado pela Lei 14.133/2021, o contratado recebe um percentual da economia efetivamente gerada, e a diferença entre o prometido e o obtido é descontada da remuneração. O art. 144 também permite pagar sobre o valor economizado em projetos de racionalização, com a despesa correndo pelos mesmos créditos orçamentários (TCU). O projeto se paga com o que economiza.
- Prestação de contas do retorno. Uma vez por ano, cada contrato de tecnologia deve ser confrontado com o ganho que prometeu. O que entrega é protegido do corte linear; o que não entrega sai.
A pergunta certa para 2027
A pergunta que o gestor costuma fazer diante de um contrato de tecnologia é quanto ele custa. A pergunta que as empresas aprenderam a fazer é quanto custa não tê-lo. Em um ano de folha pressionada, contratos pedindo reequilíbrio e repasses incertos, a segunda pergunta é a única que leva a uma resposta útil.
Tecnologia não é o item que se corta para atravessar a crise. É o item que define quanta capacidade a prefeitura terá do outro lado dela.
Fontes
Todas as páginas abaixo foram abertas e conferidas em 30/10/2026. Os dados de cenário citados por menção têm suas fontes nos artigos Fazer mais com menos e O que vale para o empresário vale em dobro para o prefeito.
- FGV EAESP: 36ª Pesquisa Anual do Uso de TI, FGVcia (2025)
- Exame: A IA já chegou ao setor público, mas parou nas capitais (24/07/2026, dados da TIC Governo 2025, Cetic.br)
- ABEP-TIC: Despesas com Tecnologia da Informação e Comunicação, um estudo sobre sua eficiência e importância para o Brasil (Rivas e Kahn)
- SEFAZ-ES: Nota Técnica 002/2018 sobre despesas com software
- BNDES: PMAT Automático, investimento
- BNDES: Finem PMAT
- TCU: Licitações e Contratos, maior retorno econômico e contrato de eficiência
- Record News: Sebrae lança simulador sobre regime de trabalho 5x2 (29/10/2026, entrevista com Eduardo Curado)
- Região News: georreferenciamento impulsiona lançamento do IPTU em Sidrolândia (10/06/2026)
- Rede TV Paraná: Prefeitura de Curitiba economiza R$ 43 milhões com o Procec (24/09/2026)
- Forbes Brasil: Mapa da Burocracia mostra que abrir uma empresa pode demorar entre 7 e 34 horas (23/07/2026, cita o Mapa das Empresas)