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Tecnologia e Cidades Inteligentes

Ferramenta virou commodity. Arquitetura, não.

21 jul 2026·5 min de leitura·Por Danilo Velloso

Todo mundo tem acesso à mesma tecnologia. Isso já não é mais diferencial, é ponto de partida. E é exatamente por isso que tanta gestão pública continua errando o alvo, mesmo comprando o software mais moderno do mercado.

A commoditização é real, e os números provam

Não é impressão. O mercado de low-code e no-code, que permite qualquer pessoa sem formação técnica montar sistemas, telas e automações, está avaliado entre 48 e 65 bilhões de dólares em 2026, com projeções de ultrapassar 187 bilhões até 2030, segundo levantamentos da Gartner e da Fortune Business Insights. O crescimento anual passa de 25%. Gartner já havia estimado que 70% das novas aplicações corporativas usariam low-code ou no-code até 2026, saindo de menos de 25% há poucos anos.

Isso confirma o que se sente na prática: gerar edital, montar busca de preços, criar dashboard, produzir minuta, tudo isso hoje se faz com poucos cliques ou um prompt bem escrito. O gargalo técnico que existia há uma década, quando codificar algo exigia formação, tempo e equipe, praticamente desapareceu. Qualquer pessoa com celular na mão produz um artefato que parece solução.

E mesmo assim, a maioria continua fracassando

Aqui está o ponto que a euforia tecnológica esconde: ter a ferramenta acessível não resolveu o problema de fundo, só mudou onde o fracasso acontece. A McKinsey, em análise recorrente, mostra que entre 70% e 88% das iniciativas de transformação digital não atingem os objetivos propostos, e que apenas cerca de 30% das empresas conseguem extrair o valor financeiro esperado dessas iniciativas.

Com inteligência artificial, o quadro é ainda mais duro. O MIT Media Lab, no estudo "The GenAI Divide: State of AI in Business 2025", analisou mais de 300 implementações públicas de IA generativa em empresas e concluiu que 95% dos pilotos não geram nenhum impacto financeiro mensurável. Segundo a pesquisa, o problema não está na qualidade dos modelos, mas na ausência de integração real com os processos e o contexto de cada organização. Ou seja: sobra ferramenta genérica, falta arquitetura específica.

Forrester chegou a um diagnóstico parecido por outro caminho: 58% das falhas em projetos de transformação digital vêm de quebras de governança, contra apenas 22% de problemas técnicos. O software funciona. O que não funciona é aplicá-lo sem entender a estrutura, as regras e o processo real por trás dele.

No Brasil, esse erro tem nome e tem multa

Na gestão pública brasileira, esse descompasso entre ferramenta fácil e arquitetura difícil aparece com força total nas licitações. O próprio Tribunal de Contas da União desenvolveu um conjunto de robôs de inteligência artificial (Alice, Sofia, Mônica, Ágata, entre outros) justamente para varrer editais, atas e contratos em busca de inconsistências, direcionamentos e falhas de conformidade. Ou seja: o órgão de controle usa IA para pegar quem usou tecnologia sem entender a lei que envolve o processo.

Há inclusive jurisprudência do próprio TCU tratando do uso indevido de automação por licitantes: o uso de robôs por um participante em pregão eletrônico, de forma a gerar vantagem competitiva desproporcional, foi entendido como comprometimento de todo o procedimento licitatório. A ferramenta, usada sem compreensão do arcabouço legal e dos princípios da licitação, virou motivo de nulidade, não de eficiência.

Isso é a prova concreta do argumento: o commodity tecnológico, sozinho, não protege ninguém. Pelo contrário, pode expor o gestor. Quem gera edital, dispensa ou pesquisa de preços apenas apertando um botão, sem dominar a Lei 14.133/2021, os princípios da isonomia e competitividade, e o histórico de jurisprudência do TCU sobre o tema, está produzindo risco jurídico com aparência de inovação.

O que continua caro é o que não se automatiza sozinho

A tecnologia deixou de ser vantagem competitiva porque deixou de ser rara. O que continua raro, e por isso continua valioso, é a capacidade de conectar três camadas que nenhum software genérico entrega pronta: o enquadramento legal aplicável àquele caso específico, o processo de negócio real daquele órgão (não o processo idealizado em manual), e o conhecimento profundo de quem é o cidadão que vai usar ou ser afetado por aquela solução.

Essa é a diferença entre comprar uma ferramenta e construir uma arquitetura. A ferramenta resolve o sintoma na tela. A arquitetura resolve o problema na estrutura, e é isso que sustenta um projeto quando ele passa pela auditoria, pela Câmara, pela imprensa e pela próxima gestão.

O paradoxo do orçamento público

E aqui aparece uma contradição que qualquer gestor público reconhece na hora: na administração pública nunca se tem orçamento para falar de planejamento a médio e longo prazo, mas sempre se arranja dinheiro para fazer errado e para o retrabalho.

O diagnóstico institucional, o enquadramento legal bem feito, o mapeamento do processo de negócio antes de contratar, tudo isso é tratado como custo evitável, como etapa que atrasa a entrega. Mas o edital anulado, o contrato questionado pelo tribunal de contas, o sistema que não conversa com o processo real e precisa ser refeito um ano depois, isso sempre encontra verba. Sempre. Porque nessa hora já não é mais planejamento, é emergência, e emergência não compete com prioridade orçamentária, ela simplesmente acontece.

É a mesma lógica dos números do MIT e da McKinsey: o dinheiro não falta para tecnologia, falta para a arquitetura que faz a tecnologia funcionar da primeira vez. E o retrabalho, que parecia mais barato porque não apareceu na planilha inicial, é exatamente o custo da arquitetura que não foi feita antes.

Os números não deixam dúvida: o commodity está em toda parte, e mesmo assim entre 70% e 95% das iniciativas continuam falhando. A ferramenta ficou fácil. A cidade continua difícil.

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