Anexo Técnico · Governança e Investimento Privado

Simulação: quanto vale, para o investidor, um município que prova o que declara

Atualizado em 19 de outubro de 2026 (IEG-M 2025, exercício 2024) · Autor: Danilo Velloso, fundador e CEO da Ana Smart Solutions

Anexo técnico do artigo 'O SIAFIC é o COSO da prefeitura' e do Estudo SIAFIC e IEGM, com dados dos 644 municípios paulistas e referência na PPP de iluminação pública estruturada pelo BNDES para Joinville.

Convenção: Fato observado (dado de fonte identificada), Premissa (valor adotado pela Ana Smart para a simulação), Resultado (cálculo a partir de fatos e premissas), Limite.

1. A pergunta

Um investidor de infraestrutura quer colocar dinheiro em parcerias público-privadas municipais em São Paulo. Ele tem 644 municípios para escolher. O que muda na decisão dele se um município consegue provar, com evidência, o que declara ao Tribunal de Contas, em vez de apenas declarar?

Para responder com número, a simulação usa um projeto real como referência (a PPP de iluminação pública estruturada pelo BNDES para Joinville), os dados oficiais dos 644 municípios paulistas no IEG-M do exercício 2024 e um prêmio de risco de governança adotado como premissa e testado em sensibilidade.

2. O projeto de referência

BNDES, PPP de Iluminação Pública de Joinville/SC, Relatório Econômico-Financeiro Final, fevereiro de 2023, elaborado pelo Consórcio Accenture e Moysés & Pires. Cerca de 61,8 mil pontos de luz; CAPEX de R$ 199,81 milhões, ou R$ 3.232,69 por ponto; OPEX médio de R$ 6,54 milhões por ano; contraprestação mensal máxima de R$ 37,38 por ponto; prazo de 22 anos; custo médio ponderado de capital (WACC) real de 8,42%, igual à TIR do projeto. Valores em reais de dezembro de 2021, referenciais e não vinculantes.

Nota: o WACC de 8,42% combina custo de capital próprio real de 10,67% (com prêmio de risco Brasil de 6,41%) e custo de dívida real de 8,81%, que já inclui 1,78% de risco de crédito.

Iluminação pública foi escolhida porque é o tipo de PPP municipal mais replicado no país e porque o Banco Mundial e a Caixa publicaram critérios para escolher cidades para esse tipo de projeto.

Banco Mundial e Caixa, "Evaluation and Identification of Pipeline of Cities for Structuring PPPs for Public Street Lighting in Brazil", 27/04/2019. Entre as condições de pré-viabilidade de uma cidade estão lei de PPP, grupo gestor da PPP, arrecadação da contribuição de iluminação (COSIP) estabelecida, comprometimento da RCL com PPPs abaixo de 5% e inventário dos pontos de iluminação. Contratos de iluminação são "tipicamente 20 a 30 anos".

3. Premissas

Item Valor adotado Origem
Custo por ponto, OPEX por ponto, prazo e WACC do município auditável Os do projeto de Joinville Fato observado, BNDES
Calibração Fator de 1,0352 sobre o cálculo simplificado, para reproduzir exatamente a contraprestação de Joinville (R$ 448,56 por ponto por ano) Premissa técnica: absorve tributos e rampa de implantação do modelo original
Atualização para 2024 IPCA acumulado de 2022 a 2024 (5,79%, 4,62% e 4,83%), fator de 1,1602 Fato observado, IBGE
Município de referência Mediana dos 212 municípios médios paulistas: 45.813 habitantes e RCL de R$ 245,9 milhões em 2024 Fato observado, IEG-M 2025, exercício 2024, e Estudo Tecnologia
Pontos de iluminação Um ponto para cada 10 habitantes: 4.581 pontos Premissa: proporção observada em Joinville (61,8 mil pontos para cerca de 616 mil habitantes no Censo 2022)
Prêmio de risco de governança Município auditável: zero. Declarado coerente: +1,5 ponto percentual no WACC. Declarado com lacunas ou contradições: +3,0 pontos. Sensibilidade: +0,75 ponto Premissa, ancorada em duas referências: o risco de crédito de 1,78% embutido no próprio custo de dívida do BNDES em Joinville e a queda de cerca de 74 pontos-base no CDS brasileiro associada à credibilidade fiscal em 2023 (FGV IBRE, Boletim Macro de junho de 2023)
Limite fiscal Despesas continuadas com PPPs de até 5% da RCL Fato observado, Lei nº 11.079/2004, art. 28, e critério do Banco Mundial

Por que zero prêmio para o auditável. O WACC de Joinville vem de um projeto estruturado pelo BNDES, com inventário, estudos e diligência. A simulação trata esse nível de informação como o que um município auditável entrega por conta própria. O prêmio mede quanto o investidor cobra a mais quando essa informação não existe ou não pode ser verificada.

Como os 644 municípios foram classificados (leitura da Ana Smart, a partir das respostas ao IEG-M e da base documental de 08/10/2026):

Arquétipo Regra Municípios
Auditável (aproximação) Passa nos cinco sinais mínimos do SIAFIC, tem PDTIC próprio vigente em 2024 confirmado e não tem contradição entre os quesitos 8.1 e 8.4 do i-Gov TI 38
Declarado coerente Atende quatro sinais ou mais, sem contradição, mas sem a prova completa 236
Declarado com lacunas ou contradições Tem contradição entre os quesitos 8.1 e 8.4 ou atende três sinais ou menos 370

4. Resultado 1: o mesmo projeto, três preços

PPP de iluminação no município médio de referência: 4.581 pontos, CAPEX de R$ 17,2 milhões, 22 anos (reais de 2024).

Município WACC exigido Contraprestação anual A mais por ano A mais em 22 anos % da RCL
Auditável 8,42% R$ 2,38 milhões 0,97%
Declarado coerente 9,92% R$ 2,60 milhões R$ 214 mil (+9,0%) R$ 4,7 milhões 1,06%
Declarado com lacunas ou contradições 11,42% R$ 2,82 milhões R$ 437 mil (+18,3%) R$ 9,6 milhões 1,15%
Sensibilidade, +0,75 ponto 9,17% R$ 2,49 milhões R$ 106 mil (+4,4%) R$ 2,3 milhões 1,01%

Resultado. Para receber exatamente a mesma iluminação, o município que não prova o que declara paga entre R$ 2,3 milhões e R$ 9,6 milhões a mais ao longo do contrato. É dinheiro que sai do orçamento sem virar um poste a mais.

5. Resultado 2: a decisão do investidor

Agora inverta a pergunta. O município oferece o preço de mercado de um projeto bem estruturado, o de Joinville. O investidor calcula o valor presente do projeto com a taxa que ele exige para aquele município.

Município Valor presente líquido para o investidor, ao preço de mercado Decisão provável
Auditável Zero: remunera exatamente o custo de capital Investe
Declarado, sensibilidade de +0,75 ponto 5,6% do CAPEX negativo Negocia preço ou garantia
Declarado coerente 10,6% do CAPEX negativo Exige preço maior, garantia adicional ou não apresenta proposta
Declarado com lacunas ou contradições 19,5% do CAPEX negativo Não apresenta proposta

Resultado. Ao mesmo preço, o projeto que é viável no município auditável destrói de 10% a 20% do capital investido no município que só declara. É assim que uma lacuna de informação vira licitação deserta, proposta única ou contraprestação mais cara.

6. Resultado 3: quanto investimento cabe no orçamento

A Lei nº 11.079/2004 limita as despesas continuadas com PPPs a 5% da RCL. Esse limite é fixo. O que muda com o risco é quanto investimento privado ele consegue pagar.

Município médio de referência (RCL de R$ 245,9 milhões, limite anual de R$ 12,3 milhões):

Município Investimento privado máximo que o limite de 5% sustenta Diferença
Auditável R$ 88,6 milhões
Declarado, +0,75 ponto R$ 84,8 milhões R$ 3,8 milhões a menos (4,3%)
Declarado coerente R$ 81,3 milhões R$ 7,3 milhões a menos (8,2%)
Declarado com lacunas ou contradições R$ 74,9 milhões R$ 13,7 milhões a menos (15,5%)

Os 644 municípios paulistas (RCL somada de R$ 199,8 bilhões em 2024), cada um no arquétipo em que está hoje:

Situação Investimento privado máximo sustentado pelo limite de 5%
Hoje, com o prêmio de cada arquétipo R$ 64,2 bilhões
Se todos fossem auditáveis R$ 72,0 bilhões
Diferença R$ 7,8 bilhões (+12,2%)

Resultado. Sem gastar um real a mais do limite legal, os municípios paulistas poderiam sustentar R$ 7,8 bilhões a mais em investimento privado se provassem o que declaram. É a resposta, em ordem de grandeza, à pergunta "quanto atrairia".

Limite. É um teto de capacidade, não uma previsão. Nenhum município usa todo o limite de 5%, parte dele já pode estar comprometida com outros contratos, e o cálculo supõe projetos com a mesma relação entre CAPEX e OPEX da iluminação pública.

7. Resultado 4: onde o investidor vai procurar

Um investidor que exija escala mínima e governança verificável faria esta triagem nos dados públicos:

Filtro Municípios RCL somada (2024)
Todos os municípios paulistas sob o TCESP 644 R$ 199,8 bilhões
Com 20 mil habitantes ou mais 253 R$ 178,5 bilhões
Que passam nos cinco sinais mínimos do SIAFIC 80
Que também têm PDTIC próprio vigente em 2024 confirmado 27
Sem contradições entre os quesitos 8.1 e 8.4 do i-Gov TI 22 R$ 26,9 bilhões

Resultado. De 253 municípios com escala, só 22 chegam ao fim da triagem. Eles concentram 15% da RCL desse grupo. Os outros 231 não deixam de ser viáveis; deixam de ser verificáveis, e o investidor que precisa escolher começa pelos que consegue verificar.

Fato observado. Dos 22, 11 têm i-Gov TI A e 10 têm B+. No IEGM geral, só 9 estão em B ou B+, e 13 estão em C ou C+. Governança verificável e nota geral alta não são a mesma coisa.

8. O que a simulação mostra para o prefeito

  1. Provar custa menos do que não provar. No município médio, a diferença de preço numa única PPP de iluminação paga, ao longo do contrato, entre R$ 2,3 milhões e R$ 9,6 milhões. Um sistema que mantém as evidências em dia custa uma fração disso.
  2. O risco de governança é precificado mesmo quando ninguém fala dele. Ele aparece como contraprestação maior, licitação deserta ou exigência de garantia.
  3. O limite fiscal rende mais nas mãos de quem prova. No município médio, a diferença chega a R$ 13,7 milhões de investimento a mais com o mesmo teto de 5% da RCL.
  4. Ser escolhido é estar na lista curta. Com os dados públicos de hoje, só 22 dos 253 municípios paulistas com mais de 20 mil habitantes passariam numa triagem de governança verificável.

9. Limites

  1. O prêmio de risco de governança é premissa da Ana Smart. Não há estudo publicado que meça esse prêmio para municípios brasileiros. Os valores foram ancorados no risco de crédito do modelo do BNDES e na variação do risco país associada à credibilidade fiscal, e testados em sensibilidade.
  2. Os arquétipos usam respostas autodeclaradas ao IEG-M e documentos localizados pela Ana Smart em 2026. "Auditável" é uma aproximação, não o resultado de uma auditoria.
  3. O projeto de referência é um único caso estruturado pelo BNDES. Custos, prazos e taxas variam por município, porte e ano.
  4. A proporção de um ponto de iluminação para cada 10 habitantes é premissa de ordem de grandeza.
  5. O modelo usa anuidade simples calibrada ao caso de Joinville; não substitui o modelo econômico-financeiro de um projeto real.
  6. A simulação não considera o acesso a crédito com garantia da União, que depende da Capag, nem o custo e o prazo de diligência. Os dois efeitos tendem a ampliar a diferença a favor do município auditável.

10. Reprodução

Base consolidada da Ana Smart Solutions a partir dos microdados públicos do TCESP (exportação oficial de respostas do IEG-M 2025, exercício 2024, incluindo Receita Corrente Líquida no quesito i-Fiscal F5), IBGE e SICONFI/STN, cruzada com o levantamento documental de vigência e qualidade de PDTICs, a verificação de coerência entre os quesitos 8.1 a 8.4 do i-Gov TI e o resultado dos cinco sinais mínimos do SIAFIC.

11. Fontes

Continuação da leitura no Portal SIAFIC e IEGM

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